quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

É MESMO MESMO AQUI AO LADO



E pronto, a vida é feita destas coisas. Nos últimos anos, confesso, este espaço deu-me algumas alegrias. Mais do que nos que tive até então. Aqui, para não variar, partilhei muito do que sou – ou acredito ser – e o número de visitas, embora nada comprove, deixou-me satisfeito, com a ligeira sensação de que fui compreendido por mais pessoas. Agora, devido a uma pintura e à necessidade de mudar de pele, como fazem as cobras e todos aqueles que têm noção que a identidade é um processo em formação, ou deformação, cheio deste fundo negro, só me resta mudar de espaço, partir para outra. O título, nada de muito original, para variar aproveitado, CAPITAL HUMANO, tem muito que se lhe diga. Pelo menos, assim me pareceu. Acho que o poema que o inaugura é suficiente para perceber onde quero chegar com ele. O lugar das palavras no mundo, e melhor: o dos seus significados e justas importâncias. 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013


A ESCRITA, A DOR E UMA POSSÍVEL MUDANÇA DE TEMPO



A escrita enquanto dor
pode demorar.
Para dores interiores,
ao nível dos tendões, duas
ou três horas consecutivas, com toda
a ferocidade,
são do mínimo suficientes:

a memória de uma queda
que deixou marcas
nos ossos e agora
que escrevo
não me deixa mentir.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

EFEITO DE DISTANCIAMENTO



Sempre o mesmo sol a preencher de luz
o espaço e o rio por vezes evaporado
a denotar nos ares o seu nevoeiro cerrado
pelos montes no horizonte. De caminho
levantam-se as avós, gritam o sossego
do dia as crianças, e os lençóis, estendidos,
como quem chora, agitar-se-ão esquecidos até
receberem os seus abraços. O cemitério, esse,
avivar-se-á como todos os dias no seu horário
útil e não como em todos os domingos
de festividades fúnebres, seculares e perpétuas.  
E como se não bastasse – e notem que não
quero vender nada – vivo ao lado de uma rua
onde todos os dias rugem e param autocarros.
Qualidades estas que nem sempre fazem
sentido. Excepto hoje. Noto que crer
num equilíbrio que às vezes não existe
pode muito bem ser um belo e admirável exercício
de escrita, e mesmo assim, quando saio,
nunca saio a correr, espero sempre na paragem.

sábado, 12 de janeiro de 2013

MAIO DE 68



Sem me lembrar de grande parte do discurso: a objectividade da expressão “sentido de único”, de Almada Negreiros, o envergonhado são-tomense. Li algures nos últimos meses que o maio de 68 – se não dito com esse propósito, assim interpretei – foi um fenómeno bem mais importante para o mundo da publicidade do que para o mundo que nos permite.

FALEMOS DE ATIVOS E PASSIVOS





Se existem corrompidos é porque existem pessoas que corrompem. Se é péssimo para uma sociedade a existência dos primeiros, sem os segundos a corrupção não existiria. O problema, portanto, mais do que (e apenas) nos passivos, está nos ativos. A democracia cairá se não soubermos também identificá-los e continuarmos a olhar apenas para a classe política como bode exclusivo e expiatório. Na verdade, e não isenta esta de culpa, a classe de política é olhada como a origem de um problema bem mais profundo e complexo do que parece, anterior à existência desta como classe. Muito mais do que origem, ela é o meio utilizado por uma outra classe, a financeira. Esta sim, enquanto transportadora de conceitos opostos ao domínio estatal, a origem de todos os problemas políticos atuais, como sabemos. Há que ir então à origem para resolver o presente vivido. Isso e deixar de olhar para os grupos económicos como entidades autómatas, independentes das mãos humanas que as guiam e delas usufruem em detrimento do equilíbrio social. Entre o estado, o ultraliberalismo e a utópica anarquia, meus amigos... Sem qualquer sombra para dúvidas o estado. Quando comparado com as outras duas hipóteses – e peço desculpa pela redundância – é sem dúvida o sistema mais difícil. Mas, também, a única capaz de fazer frente ao liberalismo extremista que vai a trote de grande parte do teor teórico anarquista.